Processo de animação de Os Incríveis

Após lidarem com a escala completa e o design de produção intrincado para "Os Incríveis", os cineastas encararam a tarefa mais difícil: animar os personagens para que eles parecessem totalmente vivos na mais ampla gama possível de movimentos e expressões humanos.

Isso levaria a equipe do filme para dentro de uma "zona proibida": sabia-se que a animação de computador não estava equipada para gerar qualidades humanas sutis. Por exemplo,
considerava-se impossível animar músculos que se flexionassem e ondulassem, cabelos que se movimentassem e aparentassem elasticidade, peles que franzissem e esticassem e roupas que se movimentassem independentemente do corpo. Em razão disso, os animadores de computador evitavam personagens parecidos com seres humanos. O diretor Brad Bird, porém, estava convencido de que a tecnolgia poderia ser inventada para permitir que seus personagens aparentassem mais "vida".

"Todos na Pixar sabem que quanto mais próximo da realidade você tem de fazer algo, mais fácil é falhar: mas o segredo usado por Brad com 'Os Incríveis' foi produzir alguma coisa que o público sabe que não existe, alguma coisa tão estilizada que eles estejam prontos a acreditar nela se tudo funcionar de maneira imperceptível", explica o produtor executivo John Lasseter. "Com a tecnologia pioneira da Pixar, estávamos prontos para conseguir isso. Nosso objetivo em 'Os Incríveis' era criar seres humanos bem estilizados que nunca pudessem se passar por seres humanos reais, mas com cabelo, pele e roupas tão verossímeis que suas reações tivessem um impacto mais forte e mais dramático".

Ao encarar o desafio de movimentar os personagens de uma maneira realista, a equipe técnica decidiu literalmente aprender anatomia. Cópias do livro escolar médico clássico "Gray's Anatomy" foram distribuídas a todos os escultores digitais e à equipe de modelagem dos ossos para ajudá-los a entender como o corpo se move durante ações específicas. Filmes de pessoas se flexionando, andando e se movimentando também ajudaram a equipe a animar músculos, peles, cabelo e roupas.  

Esqueletos e músculos

O esqueleto e a musculatura em seu redor é onde todo o movimento se inicia; assim, obviamente, foi por onde a equipe da Pixar iniciou. Começou com o corpo de Beto Pêra, o Sr. Incrível, e literalmente o criou de dentro para fora.

"Beto foi definitivamente o personagem mais difícil para modelar e criar a estrutura óssea porque ele é um cara muito musculoso", diz Rick Sayre, diretor técnico da supervisão do filme. "Quando começamos a criá-lo, desenvolvemos uma abordagem completamente nova e diferente para seu esqueleto e a maneira como músculo, pele, ossos e gordura seriam anexados a ele. Usamos uma nova tecnologia fantástica chamada 'goo' que permite que a pele reaja com os músculos, deslizando e aderindo sob a pele de uma maneira muito real."

Isso mudou todo o processo de animação. Os animadores não são tão bons técnicos quanto artistas: os atores ou marionetes coreografaram de maneira criativa os movimentos dos personagens e as expressões por meio de controles de computador especialmente programados. Agora os animadores tinham maior controle do que nunca sobre os personagens.

"Você pode ter notado que é muito difícil conseguir um movimento de ombro convincente em animação CG", diz Sayre. "É por isso que freqüentemente vemos personagens animados que têm ombros excessivamente largos. Queríamos fazer um progresso nos ombros com esse filme, por assim dizer."

Depois que Beto estava completamente modelado, ele serviu como modelo para os esqueletos de outros personagens. "Com Beto, nós realmente nos concentramos em alcançar um alto nível de complexidade no movimento do corpo", diz o supervisor de personagem Bill Wise. "Assim que conseguimos estruturar os movimentos dele, pudemos usar esse mesmo esqueleto articulado para os outros personagens: com algumas mudanças, é claro. Um personagem feminino, por exemplo, não terá uma musculatura tão definida, mas ela ainda tem um deltóide que se encaixa sobre o topo do úmero. Ainda há uma clavícula lá. E, assim, você pode remodelar a mesma estrutura óssea para se encaixar em qualquer personagem."

Um personagem em particular mostrou-se especialmente desafiador em seus movimentos musculares: Helena Pêra, a Mulher Elástica, que deveria ser capaz de se esticar, curvar e dobrar em uma ampla gama de formas em nó que desconcertaria o melhor praticante de ioga. A Mulher Elástica forçou os animadores a darem um passo a mais e, assim, eles desenvolveram um programa chamado "deformador", que permitiu a ela dobrar-se e girar quando necessário. Essa foi a estrutura mais complexa que eles já fizeram. Os animadores puderam, de fato, colocar seu corpo na forma de um pára-quedas ou esticar seu braço em uma longa fita de carne e osso.

Os animadores puderam puxar os braços da Mulher Elástica em longas fitas com pontos de controle ao fazer 'Os Incríveis'.
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Animar a Mulher Elástica foi um imenso desafio para a equipe da Pixar

Pele e cabelo

As qualidades que realmente criam realismo em um personagem são a aparência da pele e do cabelo. Foi aqui que a Pixar fez seus avanços mais importantes, com novas abordagens para iluminar e sombrear a pele e esculpir penteados. A Pixar criou uma nova tecnologia chamada "espaçador de subsuperficial", que deu mais translucidez à pele e fez os personagens parecerem vivos. Com penteados variando desde o corte curtinho de Helena, passando pelo penteado engenhoso dos longos cabelos lisos de Violeta, novos programas e abordagens também foram necessários para esculpir os penteados dos personagens.

"Os personagens chegavam a nosso departamento carecas e nus, e saíam com roupas e cabelos que se moviam de uma forma realista", diz Mark Henne, o supervisor de simulação de vestuário e cabelo do filme. "O cabelo em um filme CG sempre foi difícil porque é tão cheio de camadas e composto de milhões de fios que se friccionam uns com os outros e aparentam uma coesão. Ele se divide e se recompõe em resposta a como a cabeça se move e à atuação do vento. O problema surge de todas as camadas querendo passar umas pelas outras, como você evita que isso aconteça e como ele interage com braços, ombros e outros objetos sólidos."

O personagem mais difícil de animar do ponto de vista do cabelo foi a Violeta. Ela permaneceu um poço de "projeto de pesquisa não resolvido" na produção do filme em razão de seu cabelo longo e liso: a perdição da existência de um animador. De fato, ninguém nunca havia animado esse tipo de cabelo antes para um filme CG. Henne e sua equipe apresentaram cinco diferentes penteados esculpidos para Violeta para as diferentes fases do filme. Cada um desses estilos poderia então ser modificado para refletir as várias condições ambientais que ela encontrava, incluindo chuva, vento e a gravidade zero de seu próprio campo de força. Posteriormente, o cabelo de Violeta se tornou um dos triunfos do filme.

Vestuários

Mesmo em relação ao guarda-roupas, "Os Incríveis" foi mais complicado do que qualquer filme animado na história, e mais similar a um drama com roupas épicas. Mais de 150 roupas tiveram de ser especialmente desenhadas e confeccionadas para se encaixarem nos personagens principais e secundários.

O diretor não queria simplesmente roupas bonitas para seus personagens: ele queria roupas que se movessem como tecidos reais. A Pixar já era famosa por seu trabalho pioneiro em movimentos de roupas, graças aos avanços feitos com a camiseta da Boo em "Monstros S.A.". Para "Os Incríveis", a equipe descobriu uma maneira inovadora de "modelar" roupas nos personagens, especialmente no caso dos superuniformes grudados ao corpo. Em vez de simular o vestuário para cada quadro individual, esse processo analisa as diferentes poses e padrões de movimento para um personagem e automaticamente cria o movimento apropriado para a roupa. Por exemplo, quando Beto se senta em uma cadeira vestindo seu supertraje, a roupa sabia,

 o que fazer e onde vincar porque ela já tinha passado por um treinamento abrangente.

Os efeitos especiais foram necessários para cada elemento possível, como as rajadas de gelo do Gelado em
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Os efeitos especiais foram necessários para cada elemento, como as rajadas de gelo do Gelado

Efeitos especiais

Os efeitos especiais incluíram todo elemento natural possível: desde a água até o fogo, passando pelo gelo (para as travessuras supergeladas do Gelado), e precisaram ser criados para mais de 1/3 dos mais de 2.200 quadros no filme.  

"Os efeitos vistos em 'Os Incríveis' foram completamente novos e espetaculares", diz Sandra Karpman, supervisora de efeitos. "O maior salto do ponto de vista dos efeitos especiais é o fato de termos nuvens lindas, fantásticas, em 3-D, nas quais você pode, de fato, voar. A maioria das nuvens em outros filmes com efeitos, ou mesmo os filmes CG anteriores, são meras pinturas ou fotografias paradas. Em nosso filme, quando Helena está no avião voando através das nuvens, é muito 3-D, e você vê as nuvens se movendo umas contras as outras. Elas são transparentes e, se você pára sobre elas, elas se tornam opacas."  

Tão incríveis quantos os efeitos especiais, as personalidades dos personagens é o que realmente dá aos "Os Incríveis" seu sentimento humano. Na próxima seção, veremos de perto cada um dos personagens.