A história do filme "Carros"

"Carros" é uma história bem pessoal para John Lasseter, o co-diretor do filme. Quando era garoto em Whittier, na Califórnia, ele adorava visitar a concessionária Chevrolet em que seu pai trabalhava como gerente do departamento de peças. Ele até conseguiu um emprego de meio-período como estoquista quando fez 16 anos.

"Sempre amei carros", disse Lasseter. "Tenho sangue Disney em uma veia e óleo de motor na outra, então não deu para resistir à oportunidade de combinar essas duas grandes paixões da minha vida: carros e animação. Quando Joe (Ranft, co-diretor de Lasseter) e eu começamos a conversar sobre esse filme, em 1998, sabíamos que queríamos fazer algo tendo carros como personagens. Na mesma época, assistimos a um documentário chamado "Divided Highways" (Auto-estradas divididas), sobre a estrada interestadual e como ela afetava as pequenas cidades norte-americanas perto de onde passava. Ficamos muito comovidos e começamos a pensar sobre como devia ter sido a situação para essas pequenas cidades que não precisavam mais ser atravessadas. Foi então que realmente começamos a pesquisar sobre a Rota 66, mas ainda não sabíamos qual seria a história do filme".

Lasseter colocou toda sua família em um trailer e foi fazer uma viagem de dois meses decidido a ficar longe de rodovias interestaduais e molhar o pé tanto no Oceano Pacífico quanto no Atlântico. A viagem deixou a família mais unida do que nunca. "De repente, percebi sobre o que o filme devia falar", disse. "Que a recompensa na vida é a jornada. É ótimo obter sucessos e fazer coisas, mas quando as faz, vai querer sua família e amigos por perto para comemorar".

A história partiu daí, com Relâmpago McQueen tendo como objetivo nada mais do que ser o carro mais rápido das corridas. "Era o personagem perfeito para ser forçado a diminuir o ritmo, da mesma maneira que eu tive que fazer isso pela primeira vez na minha vida profissional durante a viagem no trailer", disse Lasseter. "A coisa especial dos filmes da Pixar é que as histórias vêm de dentro de nossos corações. Elas vêm de coisas que importam para nós, e que nos tocam. Isso dá um significado especial aos filmes".

A beleza da Rota 66 inspirou o cenário de 'Carros.'
Copyright Disney/Pixar. Todos os direitos reservados
A beleza ao longo da Rota 66
inspirou o cenário de "Carros"

O mapa para Radiator Springs

A protagonista da trama de "Carros" é a lendária Rota 66, ao longo da qual grande parte da história acontece. Com muita fé em pesquisas e experiência em primeira mão, Lasseter voltou à estrada, dessa vez com sua equipe criativa principal, para ajudá-los a se preparar para sua tarefa.

Lasseter, Ranft, a produtora Darla Anderson, os desenhistas de produção Bob Pauley e Bill Cone, além de outros quatro membros principais da equipe de produção, voaram para a cidade de Oklahoma e partiram em uma caravana de quatro Cadillacs brancos em uma viagem de nove dias pela Rota 66. O escritor Michael Wallis, historiador indicado ao prêmio Pulitzer e que explorou a Rota 66 por mais de 60 anos, liderou a expedição e narrava tudo pelos walkie-talkies.

"A Rota 66 é o reflexo de nossa nação", disse Wallis. "Esta estrada é a mais famosa do mundo, e representa a viagem por todas as estradas dos Estados Unidos. É uma chance de dirigir de Chicago, passar pelo centro e sudoeste, pelos sinais de neon, atravessar o grande Mojave e chegar à costa do Pacífico em Santa Mônica. Cada estrada possui um visual baseado em onde ela vai. O visual da Rota 66 é tudo, desde o solo cor de grama de Illinois às areias do deserto de Mojave. É a aparência dos Estados Unidos".

A equipe absorveu a atmosfera, chegando a recolher amostras de solo para colorir as cenas animadas com a ferrugem do sudoeste. Também realizaram estudos meticulosos com as rochas, formações de nuvens e a variedade da vegetação.
Anúncios pintados nas laterais dos prédios, desgastados e uns sobre os outros, receberam uma atenção toda especial. Além disso, a equipe entrou em pequenas cafeterias, lojas de família e hotéis de estrada, conversaram com caronistas, vaqueiros, garçonetes e mecânicos.

Um dos momentos mais significativos aconteceu ao lado de uma estrada no Arizona. "Era uma estrada linda que se conectava de maneira perfeita ao ambiente, logo ao lado de uma interestadual que atravessa um belo monte", lembra Pauley. "Quando estávamos sentados lá, um caminhão estacionou com um índio norte-americano nativo idoso e seu neto, ele nos perguntou: 'Gostam da nossa terra?'. Dissemos a ele como a achávamos linda, e ele nos contou que estava lá quando dinamitaram o caminho para a auto-estrada, atravessando a terra sagrada de seus ancestrais. Foi um momento forte. Percebemos como a interestadual cortava a terra sem qualquer tipo de cuidado ou respeito".

Na próxima seção, vamos descobrir como a equipe criativa da Pixar usou toda essa pesquisa para criar o design da produção.